Lei aprovada na Rússia é o primeiro passo para isolar o país do resto do mundo

Por Rafael Rodrigues da Silva | 12 de Abril de 2019 às 20h40

A Duma, nome pelo qual é conhecido o parlamento russo, aprovou nesta sexta-feira (12) um projeto controverso que dá aos políticos do país o poder de isolar a Rússia de toda a internet do resto do mundo.

A lei, conhecida pelo nome de “internet soberana”, propõe a criação da “runet”, uma infraestrutura de internet feita para conectar todos os sistemas e computadores da Rússia em servidores próprios sem a necessidade de se recorrer a recursos externos. A implantação deve custar cerca de US$ 470 milhões, e o projeto é visto pelo parlamento como um sistema de segurança, já que permitiria que todos os sistemas do país continuassem funcionando caso uma guerra derrubasse servidores de países como os Estados Unidos, ou então algum inimigo da nação russa tentasse atacar o país desligando o acesso dele a servidores externos.

Apesar disso, grupos não-governamentais e de imprensa têm criticado a medida por ser algo que não apenas irá reduzir a velocidade da internet do país (pois obrigará que se passe por mais servidores antes de abrir um site), mas também introduzirá mais uma ferramenta que pode ser potencialmente usada pelo estado para censurar os cidadãos do país. A censura já é um problema sério na Rússia devido às atuais leis antiterrorismo, cuja interpretação vaga permite ao governo censurar qualquer veículo de imprensa.

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Tiro no pé?

Um dos maiores desafios para a implantação de toda esta nova infraestrutura de rede é a criação de um DNS (Domain Name System) com não siga as mesmas regras do utilizado na internet mundial.

Outro problema dessa implantação é que esse sistema forçaria que todo e qualquer fornecedor de internet (seja ele da Rússia ou de algum outro país) force todo o tráfego de rede (seja ele interno ou de alguém de fora tentando acessar um site russo, ou conversando com alguém da Rússia através de aplicativos de mensagem) a passar por locais de monitoramento da rede.

Segundo Ameet Naik, gerente de marketing técnico da ThousandEyes (empresa especializada no monitoramento de redes), esse afunilamento de todo o tráfego por locais específicos de monitoramento faria com que todo o tráfego de internet da Rússia ficasse muito mais lento, piorando a experiência de navegação do usuário e, por conta da demora na conexão, faria com que os usuários deixassem de acessar fontes de fora do país, utilizando apenas aquelas da própria Rússia — ao análogo ao que aconteceu na China após a implantação do sistema de monitoramento da navegação.

Um salto gigante para a censura

Outro problema apontado por Naik para essa implantação é que ela facilitaria que o governo censure qualquer tipo de conteúdo contrário à administração Putin, facilitando a remoção de postagens em blogs e redes sociais, e permitindo até mesmo isolar o país do resto da internet em situações de conflito.

Isso aconteceria porque, para implementar esse sistema, todas as provedoras de internet do país seriam obrigadas a instalar um hardware denominado no projeto como “meios técnicos de contra-atacar ameaças” — equipamento esse que seria fabricado de forma exclusiva pela Roskomnadzor (Serviço Federal de Supervisão de Comunicações, Tecnologia da Informação e Mídia de Massa).

O problema é que em nenhuma de suas páginas o projeto define exatamente o que é esse equipamento, como ele funciona e quais suas especificações técnicas. O fato de esse aparelho ser totalmente desconhecido e ser fabricado apenas pela Roskomnadzor é algo preocupante, já que o órgão é o mesmo que já baniu do país o acesso ao Archive.org, Wikipedia, LinkedIn e, mais recentemente, ao aplicativo de mensagens Telegram (que, ironicamente, foi inventado por um russo).

Na mão de quem (não) sabe

Após a votação parlamentar, a decisão final de se o sistema será ou não implantado caberá aos ministros do país. Mas, se depender deles, tudo leva a crer que o projeto será aprovado como lei do dia 1 de novembro deste ano, quando então se iniciará a implantação da runet.

De acordo com Leonid Levin, líder do Comitê de Política Informacional, Tecnologia e Comunicação do parlamento russo, a maior defesa para o porquê o sistema deve ser implantado é o fato de que, caso o país fique um único dia que seja sem acesso à internet, a estimativa é de que a economia russa tenha um prejuízo de US$ 311 milhões. Vale lembrar que esses representantes não estão preocupados com a piora na navegação ou no possível aumento da censura, mas sim em evitar que um hipotético inimigo russo cortasse a internet do país para prejudicá-los.

Como é de se esperar, a ideia de ter toda sua atividade na internet monitorada pelo governo não está sendo bem vista pelos cidadãos da Rússia — principalmente entre a população mais jovem. Em 10 de março, protestos ocorreram por todas as principais cidades do país contra a aprovação do projeto, e na capital Moscou esse protesto reuniu cerca de 15 mil pessoas nas ruas pedindo por liberdade na internet. Entre os líderes desse protesto, estava Pavel Durov, o criador do Telegram.

Fonte: The Register

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