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Quadriga Conspiracy | A suposta morte do CEO e o mistério de US$ 190 milhões

Por Luciana Zaramela | 08 de Fevereiro de 2019 às 16h38

Rumores, boatos e teorias da conspiração não param de alimentar a novela da qual Gerald Cotten, de 30 anos, virou protagonista. No início desta semana, você leu aqui no Canaltech a notícia sobre a morte de Cotten, CEO da QuadrigaCX, a maior agência de criptomoedas do Canadá. Pois bem, a história é um tanto longa e por isso já merece o título de novela. Vamos entender toda a saga agora.

Capítulo 1: A morte inesperada

Na semana passada, o noticiário estava recheado de manchetes sobre a morte do executivo canadense na Índia, anunciada por sua esposa. A causa mortis seria complicações em decorrência da doença de Crohn, da qual ele era portador e fazia tratamento em um hospital da Índia (de acordo com sua viúva). A coisa toda tomou um ar de suspense porque, assim que ele morreu, a QuadrigaCX imediatamente perdeu acesso a um cofre com aproximadamente US$ 190 milhões em criptomoedas. O jovem CEO era o único com acesso ao cold storage da Quadriga, levando virtualmente para o túmulo toda essa bolada.

No meio da tempestade surge a viúva de Cotten (o nome dela é Jennifer... Robertson), pessoa que tem acesso apenas à carteira virtual (onde fica o dinheiro para transferências e transações) do falecido, e nada mais.

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O que está deixando o cenário canadense (e agora o mundial, também) de orelha em pé é que, se ninguém tinha acesso à fortuna, como ficarão os 115 mil clientes da agência que investiram um total de US$ 70 milhões ali?

Capítulo 2: Morreu. Mas passa bem?

Quando um CEO de banco morre, o que acontece? O funeral, claro! A família e os amigos se despedem, mas os ativos, ações e investimentos não vão para o além. O banco e a família cuidam de todos os trâmites previstos para decidir o destino do dinheiro. Mas com criptomoedas a coisa é diferente, afinal, a carteira e os cofres são gerenciados por uma senha pessoal e intransferível.

RIP ou não RIP? Eis a questão

O que não para de acontecer agora é gente do mundo todo jogar lenha na fogueira, alimentando teorias conspiratórias e elucubrando que o executivo teria forjado a própria morte para abocanhar essa fortuna e viver o resto de seus dias como multimilionário. O caso foi parar na justiça canadense, pois muitas peças ainda não se encaixam e a conta não fecha.

Apesar de a CoinDesk ter publicado o atestado de óbito de Cotten, o Reddit e o Twiitter estão em polvorosa, com usuários metralhando teorias e questionando a legitimidade do documento, afirmando que, em certos locais da Índia, você pode até comprar um atestado de óbito.

O furacão ficou ainda mais nervoso depois que Jesse Powell, CEO de uma exchange rival (a KrakenFX), disparou no Twitter sua opinião sobre a morte de Cotten: "Bizarra, e, francamente, inacreditável".

Capítulo 3: Pausa para averiguar o caso

Na última terça (5), um tribunal canadense aprovou um pedido de "concordata" da Quadriga e concedeu um prazo de 30 dias para suspensão de quaisquer processos judiciais.

Neste ínterim, o laptop de Cotten estará nas mãos dos advogados dos credores, pois nele é possível encontrar a senha para as contas milionárias e resolver o caso. Ou não.

Capítulo 4: Proteção contra falência

Agora o drama toma proporções mais drásticas, já que a QuadrigaCX terá de recuperar a senha e quitar o débito com seus investidores. Enquanto isso, entrou com pedido de proteção contra falência.

"Nas últimas semanas, temos trabalhado intensamente para resolver nossos problemas de liquidez, que incluem a tentativa de localizar e garantir as significativas reservas de criptomoedas mantidas em cold wallets", diz o comunicado no site oficial da Quadriga. Aliás, a home do site foi completamente substituída por um enorme comunicado sobre o caso.

A pergunta que fica e alimenta mais ainda as teorias da conspiração é: se a empresa trata de finanças de terceiros, por que não fez backup das senhas para acessar as carteiras em casos graves, como morte? Por que confiar as chaves dos cofres virtuais a apenas uma pessoa?

Enquanto isso, os ativos de todos os credores seguem congelados.

Cotten & QuadrigaCX em 2014 (foto via Geek Speak)

Capítulo 5: Teorias da conspiração

Destrinchando o caso, começam a aparecer informações curiosas, para não usar o termo "duvidosas". A primeira delas é: por que levou tanto tempo entre a suposta morte do CEO, em 9 de dezembro, e seu anúncio público, em 31 de janeiro? Afinal, foram quase dois meses de intervalo entre os dois eventos.

Enquanto isso, no Reddit, usuários questionam o serviço funerário de Cotten no Canadá. Uns afirmam que funcionários da funerária confirmaram que havia um Gerald Cotten sendo velado lá, outros afirmam que o agente funerário ficou desconcertado com o questionamento e que a funerária canadense não encontrou nenhum Gerald Cotten em seus registros.

Com o passar dos dias, mais pessoas, incluindo nomes respeitados no assunto, também começaram a questionar o caso. "Essa morte veio num momento bem estranho da história da empresa", atesta Emin Gün Sirer, professor da Cornell University e co-diretor da Iniciativa para Criptotransações e Contratos do Canadá, ao New York Times.

Para piorar o caso, a Bloomberg publicou nesta semana que Cotten registrou um testamento apenas 12 dias antes de sua morte, segundo documentos oficiais.

Você pode acompanhar toda a movimentação sobre o caso no Twitter (#QuadrigaCX) e também no Reddit.

Capítulo 6: O que diz o amigo

Em entrevista ao Chronicle Herald, do Canadá, Freddie Heartline, amigo e ex-colega de trabalho de Cotten, afirma que não acha o caso nada estranho. Para ele, não tem que existir conspiração alguma. "Ele sempre teve problemas, sempre tivemos problemas", lembra. "Ele se tornou CEO de um negócio milionário por um motivo", analisa o amigo. "Passou por poucas e boas em sua carreira e não seria idiota o suficiente para achar que iria se safar com uma fortuna de quase 200 milhões de dólares", defende.

Heartline tem esperanças de que o caso será encerrado em breve e a morte do amigo será tida como verdadeira. "Tenho dito aos meus amigos: gente, sim, é dinheiro, e sim, a situação é horrível, mas vamos esperar 30 dias".

Sobre o fato de o CEO ter morrido sem ter deixado a senha com alguém de confiança, Freddie é incisivo: "Não se pode confiar em qualquer um para deixar suas senhas, nem mesmo na sua esposa".

Heartline foi cofundador da exchange Bitcoin Co-op, ao lado de Cotten, em Vancouver, em 2013.

Quem foi Gerald Cotten?

Gerald Cotten (Foto via in.com)

O fundador da QuadrigaCX tinha 30 anos, era casado e não tinha filhos. Ele e a esposa viviam em um bairro afastado de Halifax, na Nova Escócia. Enquanto dono de exchange de criptomoedas, Gerald tinha diversas propriedades em seu nome, incluindo imóveis na Nova Escócia e na Colúmbia Britânica. Dirigia um Lexus 2017 e tinha um avião particular, um iate e dois chihuahuas. Além da Quadriga, ele tinha conta no Bank of Montreal e na Canadian Tire.

Até que se prove o contrário, Cotten morreu em 9 de dezembro por complicações da doença de Crohn em Jaipur, na Índia. Seu funeral teria ocorrido na Snow Funeral Home, em Halifax, em 12 de dezembro de 2018.

Ainda temos muitos dias pela frente até o encerramento do caso. Atualizaremos esta matéria com novas informações tão breve quanto possível. Fique ligado!

Fonte: CoinDesk, CBC (Canadá), QuadrigaCXReddit, The New York Times, Bloomberg, The Chronicle Herald

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